|
|
O que já foi conseguido é passado. Há que se conquistar mais
|
|
|
Liberdade e eficácia Cristián Welsh Miguens
A sabedoria popular ensina que as pessoas em geral só valorizam aquilo que elas não têm. O corolário deste enunciado seria que as pessoas nunca ficam satisfeitas, a não ser momentaneamente, e atingido um certo objetivo passam a desejar algo mais, desde bens materiais até aspectos intangíveis como mais amor, mais segurança, mais prestígio, mais conhecimento, mais sossego, mais conforto, etc..
Esta é a força que motiva o ser humano e que o impulsiona a ambicionar atingir novos objetivos que o levem a melhorar sei status e/ou a sua qualidade de vida, de onde concluímos que é a ambição individual que incentiva os indivíduos a progredir na vida, alguns com mais sucesso que outros.
Então eu pergunto: se a ambição é a força que nos leva a querer progredir e melhorar, por quê esta característica humana é tão criticada? A ambição em excesso leva as pessoas a utilizar meios imorais, antiéticos e/ou ilegais para atingir os seus objetivos. Sem entrar no mérito do que é que possa ser considerado imoral ou antiético basta dizer que, da mesma forma que o consumo de álcool desinibe as pessoas derrubando as barreiras psicológicas que causam a inibição natural, a ambição em excesso destrói as defesas montadas a partir da escala de valores dos indivíduos levando-os a incorporar a crença de que “o fim justifica os meios”, corrompendo-os.
A conseqüência mais evidente da ambição excessiva é o desejo pela detenção de Poder. Que nem as drogas e o álcool, o Poder vicia e se torna um fim em si mesmo, o que explica porque mesmo pessoas sem ambição também sofram deste mal assim que sentem o “gostinho” de exercê-lo, por menor que este seja. Quem não sofreu as conseqüências do poder exercido pelos servidores públicos sobre nós cidadãos, ao termos que lidar com a burocracia estatal?
Nada disto teria relevância se o ser humano não vivesse em sociedade. Por viver em sociedade, e para permitir a convivência em sociedade, o ser humano aprendeu e continua a aprender a limitar as suas ações . Ou seja, a necessidade de interagir com outras pessoas, que possuem pontos de vista, gostos e desejos diferentes, obriga cada indivíduo a estabelecer limites no exercício da sua própria liberdade.
Simples não é? ..... Todos nós sabemos que não é tão simples assim. Filósofos e pensadores vêm tentando racionalizar estes conceitos sem que até o momento tenhamos conseguido chegar a uma verdade universalmente aceita, e provavelmente, Deus queira assim, nunca cheguemos.
Entretanto, mesmo assim nós seres humanos temos conseguido evoluir de forma magnífica. Os críticos da nossa sociedade e em particular, mais recentemente, os da globalização, deveriam parar para refletir um pouco, analisar e estudar as condições de vida atuais, mesmo a das sociedades ou nichos da sociedade mais pobres e menos desenvolvidas e compará-las com as existentes 150 ou 200 anos atrás e mais ainda, com as existentes 1000 ou 1500 anos atrás. Não há como, objetivamente, negar o progresso na melhoria generalizada de qualidade de vida.
É verdade que ainda existe miséria no mundo e que diante do padrão de vida do mundo capitalista essas condições se apresentam aos nossos olhos como inaceitáveis. Entretanto, no contexto histórico, o simples fato destas sociedades continuarem a crescer, aumentando de forma contínua e significativa a expectativa de vida, reduzindo consistentemente os índices de mortalidade, melhorando continuamente os índices de analfabetismo, revela a melhoria das condições de vida em ritmo jamais visto anteriormente.
Diferentemente de muitos, eu não acredito que o maior desafio das sociedades menos desenvolvidas seja o de melhor distribuir a riqueza e muito menos o de obrigar a distribuir entre as sociedades menos favorecidas aquela riqueza gerada pelas sociedades mais desenvolvidos. Acredito que o maior desafio das sociedades menos desenvolvidas seja o de acelerar o processo que permitiu às sociedades mais desenvolvidas atingirem tal grau de desenvolvimento no seio das suas próprias sociedades.
Uma das principais causas deste avanço e que, como engenheiro industrial e administrador sempre me fascinou, foi o conceito da divisão do trabalho, que propiciou sem dúvida nenhuma os ganhos imensos de produtividade que geraram o aumento de geração de riqueza e que permitiu atingirmos o atual nível de desenvolvimento. A seguir veio a moeda, que impulsiona o comércio gerando o ambiente para desenvolver ainda mais a divisão de tarefas e a melhoria de produtividade, e começa a criar condições à ambição humana para gerar conhecimentos de forma acelerada e com eles, a tecnologia.
Faltava, porém, um último elemento para acelerar o progresso: maior liberdade aos indivíduos. Então, na medida em que se desenvolve a democracia e as suas instituições vemos como se quebraram uma atrás de outra as barreiras que impediam o pleno desenvolvimento econômico e a melhoria nas condições de vida. Se acompanharmos a história, perceberemos que o desenvolvimento se acelera toda vez que a sociedade, entendida como a organização e a estrutura social na qual estamos inseridos, diminui as suas restrições sobre os indivíduos e os liberta para agir mais livremente.
Entretanto, existe até os dias de hoje a percepção de que qualquer tipo de organização só existe se houver algum tipo de estrutura de poder e de autoridade que imponha determinada conduta aos indivíduos. Isto constitui um paradoxo? Se mais liberdade acelera o progresso, torna a nossa sociedade mais eficiente, por que todas as instituições sociais (família, empresas e governos) mantém uma estrutura operacional essencialmente autoritária?
O objetivo deste documento é o de chamar a atenção com relação a estas questões à luz da eficiência das organizações empresariais, tentando encontrar e/ou explorar novas formas de gestão das mesmas com base na redução da autoridade formal, convencidos que estamos de que esta é a melhor forma de otimizarmos a exploração do potencial intelectual (conhecimento) e de trabalho (competências, habilidades e energia) das pessoas.
Não podemos baixar a guarda – O Estado não desiste na tentativa de se tornar superior aos indivíduos. Costumo parar para pensar e imaginar como será a nossa sociedade no futuro, daqui a 200, 300, 500 anos ou mais. Imagino termos evoluído como indivíduos ao ponto onde adquirimos a consciência do necessário respeito pelo próximo em tal grau que não seja mais necessário possuir uma estrutura de repressão nem uma estrutura judicial gigantesca, uma sociedade não igualitária em termos de distribuição da riqueza, mas igualitária em termos de oportunidades, onde a riqueza se distribui na mesma proporção da contribuição que cada indivíduo dá para a geração de riqueza.
Uma sociedade em que os indivíduos têm consciência plena mais do que dos seus direitos, das suas obrigações e responsabilidades para com o bem comum exercida através da distribuição de tarefas, executadas com profissionalismo e seriedade na busca constante pela melhoria. Uma sociedade em que finalmente os indivíduos compreendem que o dinheiro (a moeda) é um meio, uma ferramenta, não um fim em si mesmo, de facilitar o fluxo de bens e serviços distribuindo simultaneamente a riqueza gerada conforme a contribuição de cada um para sua geração.
Uma sociedade onde se compreende que o trabalho não têm por objetivo ganhar dinheiro, mas é a forma de mantermos o padrão de vida atingido por todos nós, colaborando uns com os outros, distribuindo tarefas para gerar riqueza de forma mais eficiente e portanto não é só um direito de cada um, mas fundamentalmente uma obrigação social a ser exercida com responsabilidade e eficiência. Uma sociedade, enfim, onde se exerce plenamente a liberdade individual limitada apenas pela responsabilidade social, não imposta por meios coercitivos, mas adotada a partir da consciência individual.
Por mais utópico que possa parecer estou convencido que é nesta direção que estamos evoluindo. Entretanto, como nada é garantido, não podemos simplesmente ficar aguardando que as coisas aconteçam - devemos trabalhar e lutar para que elas aconteçam. Me parece que é nesta questão que temos falhado ultimamente. As comodidades e benefícios que a tecnologia coloca a nossa disposição, o progresso verificado na segunda metade do século XX em termos tecnológicos, as descobertas científicas e a evolução dos meios de transporte e comunicação criam a falsa ilusão de que a democracia e as suas instituições são universalmente aceitas e que nos lugares onde ainda não se desenvolveram plenamente elas se desenvolverão, pois é inexorável nesta sociedade globalizada que está se formando.
Os governos e os intelectuais se concentram em mecanismos que aceleram os negócios, deixando para segundo plano e até no esquecimento uma questão essencial: desenvolver ainda mais as instituições democráticas para que os governos, empresas e outras organizações percam poder sobre os indivíduos, mantendo apenas a dose necessária e suficiente para que seja mantida a ordem social e a garantia da igualdade de oportunidades. Subentende-se em linhas gerais que as sociedades democráticas não precisam mais lutar para ampliar a liberdade individual e não raro se defende, sem a profundidade conceitual desejável e necessária, o caminho contrário, ou seja, o de limitar ainda mais a liberdade individual aumentando o poder do estado e de instituições públicas sobre o livre arbítrio das pessoas, sem compreender que esta solução só nos empobrece como demonstra a história.
Se em termos de atuação política e exercício dos nossos direitos democráticos podemos contrapor a esta tendência um maior esforço e responsabilidade na escolha de representantes que defendam e atuem no sentido de limitar os poderes do Estado sobre os indivíduos, existem outras áreas nas quais poderemos agir como indivíduos para acelerar o processo de geração de riqueza e progresso da sociedade como um todo.
A Empresa como núcleo da transformação social
A riqueza produzida por cada sociedade é uma conseqüência direta do desempenho dos agentes econômicos que agem nesta. A produtividade é o indicador que reflete e mede tal desempenho. Não é de estranhar então que os EUA, com menos de 10% da população mundial e produzindo 50% da riqueza mundial, seja o país mais desenvolvido e mais progressista do mundo.
Os níveis de desenvolvimento e de qualidade de vida atingidos por esse povo não são conseqüência do seu poder militar nem do usufruto de privilégios que os demais povos da terra não possuam. Mesmo que os seus detratores não gostem de admiti-lo, as provas são incontestáveis: tais níveis de desenvolvimento e de qualidade de vida são conseqüência da produtividade atingida por aquela sociedade através dos seus agentes econômicos.Considerando que pouco podemos fazer com relação à melhoria de produtividade do governo, considerando-o como agente econômico, nos resta não poupar esforços na melhoria da produtividade individual e a das empresas em que atuamos.
A melhoria de produtividade individual em muito depende da melhor utilização dos recursos tecnológicos à disposição, o que por sua vez é conseqüência do treinamento e da formação dos indivíduos. Daí a grande importância e a alocação prioritária de recursos que os governos deveriam destinar à educação o que, em geral não acontece. Fica então como solução paliativa que os sistemas educacionais privados, em geral fora do alcance da maior parte da população de baixa renda, e as próprias empresas, criem seus próprios mecanismos de treinamento e formação de indivíduos.
Já às empresas cabe, nas sociedades em desenvolvimento, agir em três questões básicas como meio de melhorar a sua própria produtividade e de induzir a melhoria da produtividade na sociedade como um todo: investir no treinamento e formação dos seus funcionários, seja através de ações diretas ou do financiamento de cursos e programas de educação e formação, seja em dinheiro e/ou liberando tempo dos mesmos para que estes possam freqüentar tais cursos; implementar sistemas de gestão (estrutura organizacional, políticas, tecnologia e ferramentas) que permitam explorar ao máximo o potencial de cada um e de todos os indivíduos (são estes os que obtêm os resultados); implementar estas questões de forma que o modelo de gestão e de obtenção de resultados possa ultrapassar a fronteira da empresa, por meio do exemplo, a melhor forma de convencer e demonstrar às pessoas a diferença entre o certo e o errado, entre o que dá resultado e o que não dá, ou entre o que funciona e o que não funciona.
Pois é nesta última dimensão onde deveríamos explorar com mais afinco a criação de estruturas e sistemas de gestão que funcionem em um ambiente de maior liberdade para os indivíduos como forma de explorar ao máximo o potencial criativo e de trabalho destes. As grandes organizações já começaram a trilhar este caminho há algum tempo como única solução possível para manter o funcionamento da empresa após os processos de “downsizing” pelos quais passaram durante a década de 80 e 90. A preocupação recente com a “Gestão do Conhecimento”, os enormes investimentos realizados em sistemas informatizados de gestão e de registro e divulgação de dados e informações, a descentralização do processo de tomada de decisão aliado à redução dos níveis hierárquicos são os elementos-chave que distinguem hoje tais organizações e que servem de orientação para aquelas empresas de menor porte que desejem impulsionar à sua produtividade.
Cabe a nós consultores de organização dar orientação e suporte a toda empresa que deseje tornar-se mais competitiva por meio da aplicação destes conceitos, desempenhando então o papel que nos é destinado na transformação da sociedade. É um papel que no Brasil ainda não conseguimos desempenhar a contento a julgar pela reduzida magnitude deste negócio (aproximadamente US$ 500 milhões por ano) na economia brasileira.
Tanto o IBCO (Instituto Brasileiro dos Consultores de Organização) quanto o ICMCI (The International Council of Management Consulting Institutes), de quem o primeiro é delegado no País, têm como parte da sua missão a de fornecer meios que facilitem o acesso de empresas, especialmente as médias e pequenas, que por diversos motivos têm menos acesso a novas tecnologias de gestão, a profissionais de consultoria de organização de gabarito reconhecido permitindo então que se intensifique a utilização de tais profissionais para acelerar a implementação de medidas que impulsionem radicalmente a produtividade, contribuindo desta forma decididamente para o desenvolvimento do País.
Cristian Welsh Miguens, é presidente do Instituto Brasileiro dos Consultores de Organização (IBCO) e consultor CMC (Certified Management Consultant) reconhecida pelo International Council of Management Consulting Institutes (ICMCI), órgão cnsultivo da ONU - Organização das Nações Unidas.
|
|
|
|