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Nova geração assume 100% da GP
Fonte: Valor Econômico – SP, Empresas & Tecnologia, Gestão, 25/10/2004
Raquel Balarin e Vera Brandimarte

De São Paulo

O mais famoso trio do mundo brasileiro dos negócios - Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira - está deixando a GP Investimentos. Conhecidos por seus investimentos no antigo Banco Garantia, na Lojas Americanas e na AmBev (hoje Inbev), os três já haviam deixado deixado de ser majoritários na GP Investimentos em julho do ano passado. Na quinta-feira, selaram a venda para os outros sócios dos 40% que ainda detinham no negócio. Também saem da GP Roberto Thompson e Alexandre Behring, presidente da América Latina Logística (ALL). O valor da operação não foi divulgado.

Com o acordo, o grupo formado por Fersen Lambranho, Antonio Bonchristiano, Nelson Rozental, Marcelo Peano, Octávio Lopes, Carlos Medeiros e o recém-promovido a sócio Márcio Trigueiro passam a deter 100% da GP Investimentos. Eram eles que, de fato, vinham tocando o dia-a-dia da companhia há quatro anos. Trigueiro, o novato, tem 30 anos. Pernambucano, trabalhou na McKinsey, foi estudar em Harvard, fez uma espécie de estágio na GP há três anos e não saiu mais da empresa.

A reestruturação societária da GP, que apenas na sua área de "private equity" administra ativos de R$ 3,6 bilhões (valor patrimonial de suas participações), chama a atenção por transcorrer sem traumas ou disputas, diferente do que ocorreu em instituições como o Banco Pactual, criado por Luiz César Fernandes. Fundada em 1993 pelos donos do antigo Banco Garantia e por Roberto Thompson, a GP sempre teve por filosofia promover os sócios mais jovens e talentosos. É a meritocracia. Quem desempenha com sucesso seu trabalho ganha bônus e pode ser escolhido para comprar uma participação acionária.

O primeiro a tornar-se sócio do grupo inicial foi Antonio Bonchristiano, logo no início de vida da empresa. Em 1998, chegou Fersen Lambranho, vindo da Lojas Americanas. Em outubro de 1999 somou-se ao grupo Nelson Rozental, o único que não é prata da casa - veio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Aos poucos, outros sócios foram entrando e os mais antigos, se afastando do dia-a-dia e diminuindo sua participação. Lemann e Telles nunca estiveram à frente da operação. Beto se afastou em 2000 e Thompson, há três anos e meio. Em julho do ano passado, a turma "nova" ultrapassou a marca dos 50% de participação e passou a deter o controle da empresa.

Para Fersen Lambranho, um dos líderes da nova turma, a atitude dos antigos sócios mostra consistência com a filosofia que sempre pregaram. "Demonstra desprendimento, preocupação com a manutenção das instituições", diz Lambranho, que na quarta-feira assume a presidência do conselho da Telemar, um dos principais ativos do fundo de private equity administrado pela GP.

Fersen diz que não havia um prazo para que a "jovem guarda" assumisse 100% do capital da GP. Mas diz que a reestruturação ocorreu antes do que ele próprio imaginava, por conta da boa performance da carteira e dos negócios. Só neste ano, a GP trabalhou a abertura de capital da ALL, registrou um aumento de 88% nas vendas da loja virtual Submarino, adquiriu o controle da incorporadora Gafisa (da qual já era minoritária) e assumiu a distribuidora de energia elétrica do Maranhão Cemar.

Os antigos sócios não quiseram dar entrevista. Mas informaram que pretendem continuar se dedicando a dois outros ativos importantes de suas carteiras individuais de investimento - Inbev, controladora da cervejaria Ambev, e Americanas - e à filantropia. Em ocasiões anteriores, Jorge Paulo Lemann, declarou que "já ganhou bastante dinheiro da sociedade e agora está devolvendo". Também disse que, se pudesse voltar atrás no tempo, teria ganho menos dinheiro e se dedicado a criar mais instituições. Hoje, Lemann tem uma fundação, a Fundação Lemann, dedicada a promover a qualidade da educação brasileira.

Para os sócios Lambranho e Rozental, a reestruturação societária deve acelerar o processo de transformar a GP em uma empresa de administração de recursos mais completa, e não apenas focada em "private equity" (administração de participação acionária em empresas).

Os fundos da GP estão hoje no controle de companhias como ALL, Telemar (em sociedade com Andrade Gutierrez, La Fonte, BNDES e fundos de pensão), Submarino, Cemar, a incorporadora Gafisa e o parque temático Hopi Hari. Mas a GP também tem fundos de investimentos (derivativos) e, no ano passado, abriu uma empresa para administrar ativos lastreados em imóveis, a GP Investimentos Imobiliários, da qual detém 70% e os sócios Luciano Lewandowski e Jorge Nuñez, 30%.

Na área de private equity, a GP investiu até hoje US$ 1,3 bilhão, comprou participações em 32 empresas, vendeu 18 e mantém na carteira outras 14. Atualmente, está em processo de captação de US$ 200 milhões no exterior para fazer novos investimentos no Brasil. Na área de fundos de derivativos, tem R$ 1,2 bilhão sob sua gestão. Administra, por exemplo, um FIF fechado com patrimônio de R$ 300 milhões que aplica exclusivamente em títulos corporativos e que rendeu IGP-M mais 36,7% nos últimos dois anos. Na área imobiliária, está também em processo de nova captação de seu Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) lastreado em ativos imobiliários.

Diferentemente do que muitos pensam no mercado, a GP não tem qualquer participação na InBev (associação da Ambev com a belga Interbrew) ou na Lojas Americanas. Essa era mais uma confusão no mercado por causa dos investimentos individuais de Lemann, Sicupira, Telles e Thompson. Com a saída do quarteto, começa uma nova era na vida da GP.

Fonte: Valor Econômico – SP, Empresas & Tecnologia, Gestão, 25/10/2004